sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Cinema hegemônico



O irmão, papai e mamãe me presentearam com uma girafa. Uma girafa do Mac. Eles ganharam comprando lanches e tendo que comê-los. No dia seguinte papai até vomitou. Mamãe disse que não foi o hamburguer, foi a cerveja. Por sorte, ela instintivamente pensou que poderia contaminar meu leite com aquela comida e só deu umas mordidas numas batatas molhadas num pote de molho que eles chamam Barbecue. O irmão ofereceu uma batata a um cachorro estranho que dormia ao lado de um brinquedo do Mac, o cachorro também não quis comer aquele lanche.

Bom, foi um sacrifício danado eles me darem esta girafa. Eu acho que eles foram seduzidos por um comercial que mostra uns bichos que falam na tevê chamando a gente pra ver o filme Madagascar 2. Esse cinema apoiado na disseminação de imagens e afetos por todos os poros de comunicação é o que papai chama de hegemônico. Eu diria, pelo que ouvi falar em casa, que é viral.

Esse cinema é tão poderoso que me fez morder minha girafa. Felizmente para ela, meus dentinhos ainda se escondem sob as gengivas inchadas da boca. A razão é que se tivesse dentes não só poderia rasgar minha girafa mas também deixar machucadas as tetas de mamãe. No natal ganhei outras girafinhas diferentes. Pode ser que a girafa do Madagascar perda minha preferência e não seja mais a girafa do cinema hegemônico. Viral continuará a ser, já que a deixo toda molhada com minha saliva quando a ponho na boca.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Domingo



Tinha muito sangue no jornal...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Quando eu apareci no mundo


Quando vim pra cá, papai já tinha 32 anos e o cinema digital ganhava mais linhas de definição, o que ainda não havia sido resolvido é a maneira de comprimir e exibir com fidelidade tanta informação. Ainda vejo com meus olhos atentos para as novidades (e o mundo é inédito para mim) os velhos DVDs em Standard Definition ocuparem as prateleiras e o velho Pica Pau dominar as manhãs do SBT. Mas a tecnologia vai evoluir, a projeção digital vai melhorar e o Blue Ray vai dizer até quando deverá impressionar minha retina novinha.

O que interessa aqui é a minha história e a do cinema. Em casa, ouço ecos, cacófatos ou conversas sobre o filme que o papai prepara, acerca de uma coisa que os adultos chamam de transposição do São Francisco. Ele até colocou em mim o nome de Francisco para eu fazer parte dessa história também, assim como tanta gente faz. Quando meu pai estava na Bahia, mais precisamente em Sobradinho, onde foi construída aquela grande represa que tirou tanta gente de suas casas em nome da segurança energética do Nordeste brasileiro, eu ainda tinha dois meses de vida na barriga de mamãe. Ela enjoava demais e papai passava calor em dezembro de 2007, acompanhando a greve de fome do Bispo Luiz Cappio, que dessa forma chamava a atenção do país para os impactos da obra. Obra que existe muito antes de mim, papai, mamãe, avós e bisavós existirem.

Quando começou a se discutir a possibilidade de levar um canal de água do São Francisco até o Rio Jaguaribe, no Ceará, quem protagonizava a cena política nacional era Dom Pedro II e o Barão de Capanema. Meus genes naquela época ocupavam os corpos de gente que vivia no sul do Chile e na Ilha da Madeira. Talvez algum mouro espanhol ou português e algum negro trazido ao Brasil também, sem saber, estivesse contribuindo naquele então para definir as feições e os sentimentos que tento expressar a partir de um impensável ano de 2008 na Terra.

Bom, resolvi começar pelo filme de papai, que se chama a Ida da Vinda, porque ouço todo dia ele falar disso em casa. Mais tarde vou acrescentar a este blog minha história como cinéfilo. Até hoje, vi dois filmes inteiros no cinema. Mas ainda preciso ter cuidado com esse lance de cinema. Quando eu nasci, os cinemas que papai frequentava, no centro de São Paulo, já tinham se transformado em igrejas evangélicas, outros foram demolidos. Então agora para ir ao cinema eu tenho que enfrentar congestionamentos, muita fumaça nas ruas e o ar condicionado de shoppings, que na língua que eu estou aprendendo deveriam se chamar centros comerciais.

O ar condicionado não faz muito bem pra mim. Mas pode ser que me acostume aos shoppings por não ter conhecido a época áurea dos cinemas nos bairros e no centro da capital onde nasci. A maior cidade do país ao menos me serve como possibilidade de assistir à produção mundial. Papai terá de arranjar tempo pra me levar aos filmes que gosta. Ele promete não influenciar muito em meus gostos, mas eu espero que ele tenha certo bom senso pra não me lançar a uma sessão de Tarkovski muito cedo. Afinal, para citar o título do livro desse russo (e o que eu tenho a ver com a Rússia?), papai vai me ajudar a "esculpir o tempo". E quem sabe por estes textos e fotos vocês poderão ver esse tempo nosso (meu, de minha família e do cinema) delineado aqui.

Um prazer conhecê-los e que o nosso tempo se mescle em ritmos, cadências e visões de mundo... sempre atentos quanto a alguns fotogramas por segundo e simulacros entrelaçados...

Francisco